terça-feira, 19 de julho de 2011

Elder Perestrelo escutava os seus pensamentos minuciosamente; entregava-se a essa tarefa todo o santo dia, que são sete por semana, e houve um dia que ficou especialmente estarrecido; porque, ao pensar na cidade onde nascera, sentiu as correntes da saudade apertarem-lhe o ventre e o peito sem piedade, como só os deuses sabem fazer bem.

No dia seguinte, estava numa agência de viagens a marcar lugar num avião que o levaria a Luanda. Perestrelo já não era novo. Encontrava-se naquela idade em que a beleza da juventude dava lugar a pequenos sinais ou traços denunciadores das marcas inexoráveis da terceira idade. Porém, ele não se apercebia disso.
Abandonara o hábito de se observar ao espelho há muito, na altura em que a sua barba deixara de ser penugem e concretamente no momento em que, no espelho, viu para lá da carne e contemplou a sua caveira sem luz, negra e brilhante; perdera nesse dia todo o interesse por si próprio.
Contudo não se tornou triste nem deixou de se cuidar. Vivia para os outros e reaprendeu a arte de sorrir. Desenvolveu uma técnica a que chamou de altruísmo social. Sorria para os outros profunda e calmamente e, na altura em que se apercebia do eminente colapso de energia vital que alimentava o seu sorriso, são, lia na alma dos olhos do seu interlocutor, todos os sofrimentos que essa pessoa sofrera; lia-lhe também as alegrias que eram sempre menores, e utilizava a razão para escolher a melhor palavra, a mais adequada, a que faria "clic" no íntimo do seu concidadão.
Muitas vezes não tinha que dizer mais que uma frase para causar a mais estrondosa gargalhada.
Por isso, Perestrelo dizia a brincar e muito a sério que era um pobre palhaço.
Deixara todos os seus negócios nas mãos de um primo querido e apanhara o avião das 6 da manhã.
Ao seu lado sentara-se uma mulher que se viria a revelar muito bela, inteligente, culta e divertida. No dedo anelar dela conseguiu ver a marca de uma aliança e, no seu semblante, a tristeza profunda de quem está a sofrer da ruptura de uma longa relação.

Quando Perestrelo sorriu, ela desatara a rir fazendo dele um homem feliz. Foi nesse momento que percebeu que era ela, a oculta razão da sua viagem. Deixou de sentir saudades. Passadas 4 horas chegaram ao seu destino. E Perestrelo, ao sair do avião, levava na sua a mão de Catarina.


Texto de meu amigo pipa dedicado a mim ^^

sábado, 16 de julho de 2011

Snuff

Enterre todos os seus segredos na minha pele
Desapareça com inocência, e me deixe com meus pecados
O ar ao meu redor ainda parece uma gaiola
E o amor é apenas uma camuflagem para o que parece ser raiva novamente...

Então se você me ama, deixe-me ir.
E corra para longe antes que eu saiba.
Meu coração está escuro demais para se importar.
Não posso destruir o que não está lá.
Entregue-me para meu destino
Se estou só, não posso odiar
Eu não mereço ter você...
Meu sorriso foi tomado há muito tempo atrás
Se eu posso mudar, espero nunca saber

Eu ainda pressiono suas cartas em meus lábios
E as guardo em partes minhas que saboreiam cada beijo
Eu não pude encarar uma vida sem a sua luz
Mas tudo isso foi rasgado... Quando você recusou a lutar

Então guarde seu fôlego, eu não escutarei
Eu acho que fui muito clara
Você não poderia odiar o suficiente para amar
Isso era para ser o suficiente?
Eu só desejo que você não fosse minha amigo
Assim eu poderia te machucar no final
Eu nunca reivindiquei ser Santo...
Meu interior foi banido tempos atrás
Isso custou à morte da esperança para deixar você ir

Então se quebre contra as minhas pedras
E cuspa sua pena na minha alma
Você nunca precisou de nenhuma ajuda
Você me vendeu para se salvar
E eu não ouvirei a tua vergonha
Você fugiu - Vocês são todos iguais...
Anjos mentem para manter o controle...
Meu amor foi punido tempos atrás
Se você ainda se importa, nunca me deixe saber...
Se você ainda se importa, nunca me deixe saber...

Eu não consegui sumir, eu culpei você por me prender, mas no final, eu nunca te deixei.
Tanto amor quanto raiva, eu senti os dois por você. Mas, isso sempre voltava ao mesmo ponto...

Você.

Eu queria te deixar ir, porque te amo.
Mas eu sou egoísta demais pra deixar de me amar também.
A dor é o ultimo pedaço de realidade que eu ainda tenho.
Eu vou enlouquecer de qualquer forma.
Eu voltei a chorar todos os dias, e se você não me merece como os outros dizem, pode ter certeza...

Eu mereço você, e isso se refere a tudo o que já fez. E se eu sofro tanto, julga-se que mereço isso também.
Eu nunca lutei por você. Uma luta que perdi antes mesmo de pensar em lutar era muito mais cansativa, e eu não tinha força para isso.
Não para isso.

Mas já pensou que você nunca me ouviu chorar?
E no momento que me viu chorar, pensou que aquela cena se repetiu varias vezes e o motivo era
você?
Mas eu prometi que eu nunca deixaria você saber...